quarta-feira, janeiro 20, 2016

Defesa critica foco do Cenipa em erro humano dos pilotos de Campos

Áudios registram últimos diálogos em avião que caiu e matou Eduardo Campos - GNews (Foto: Reprodução/GloboNews)Os advogados das famílias dos pilotos de Eduardo Campos questionaram diversos pontos do relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a
queda do avião, que matou o candidato à presidência e outras seis pessoas em agosto de 2014. Eles criticam a foco da investigação no erro humano.
O Cenipa apontou que a chuva e as atitudes dos pilotos contribuíram para o acidente, que ocorreu em Santos (SP), durante a campanha presidencial de Campos. A defesa fez uma investigação paralela, com auxílio de um perito especializado em aviação, e afirma que um problema no projeto do avião pode ter contribuído para a queda.
Em relatório apresentado nesta terça-feira (19), o Cenipa aponta, entre os fatores que causaram o acidente, o fato dos pilotos terem feito uma rota diferente da prevista na carta para aproximação do aeroporto, de não conhecerem bem o avião, não terem verificado as condições meteorológicas, além de fadiga e estresse. (Veja abaixo as principais conclusões do Cenipa)

Condições técnicas
Para o advogado Rubem Seidel, o Cenipa se omitiu ao não usar o simulador para refazer o voo e não analisar na apuração as condições técnicas do aeronave. A defesa concedeu coletiva à imprensa em São Paulo (SP) nesta quarta-feira (20).
A família de Eduardo Campos, em nota, também lamentou a falta de um "teste com o simulador de voo" na investigação.
O irmão do ex-governador, o advogado Antônio Campos, também defendeu a tese de erro no projeto da aeronave.
Segundo a defesa das famílias dos pilotos, houve um erro no projeto do Cessna 560xls+ – uma falha no sensor de velocidade que permitiria mudança no estabilizador e que faria o avião embicar para baixo em alta velocidade. Esta é a tese que defende a família dos pilotos e já foi divulgada pelo G1 em 2015.
A diferença de responsabilização entre uma falha humana e uma falha na aeronave pode impactar nos processos sobre o caso. Questionado especificamente sobre indenizações, o advogado Josmeyer Alves disse que "não estamos pensando nisso agora", pois, segundo ele, a definição de onde entrarão com um processo ocorrerá até maio.

"Isso está focado com a responsabilização do operador, do dono do avião e da seguradora. Se focarmos nisso, ficaremos em um processo aqui no Brasil. Mas nós trabalhamos com a tese de que o equipamento tem uma falha tanto no projeto quanto nos itens que levantamos, como a caixa-preta, que realmente fica diferente. Aí você abre a possibilidade de atuarmos nos Estados Unidos, onde fica a Cessna (fabricante do avião) e a empresa responsável pelo gravador. Lógico que, neste caso, eu vou ter uma possibilidade maior de indenização", afirma Alves.
Simulador
Os advogados disseram que um piloto, a pedido dos advogados, fez um teste em simulador em uma escola de treinamento nos Estados Unidos, no ano passado, testando a perda do sensor em voo de cruzeiro, que comprovou que o avião embicaria para baixo em alta velocidade. A tese não foi levantada pelos investigadores no relatório do Cenipa.

Questionados pelos advogados sobre o motivo da omissão, os militares "responderam que não havia evidências", afirmou o advogado Josmeyer Alves.
"O Cenipa deveria ter o mínimo moral de analisar o campo material e não o fez porque não quis.Eles focaram apenas em erro humano", disse o perito Carlos Camacho, que participou da apuração paralela. "O Cenipa foi omisso na prevenção de acidentes, pois faltou analisar o fator material", acrescentou.
Em nota, o PSB, partido de Eduardo Campos, disse concordar com a família das vítimas quanto à falta do teste com simulador na investigação do Cenipa.
Durante a coletiva na terça-feira, o tenente-coronel Raul Souza, que coordenou a apuração do Cenipa, disse que o centro de investigação pediu o uso do simulador para o fabricante para teste, mas que a solicitação não foi atendida porque a Polícia Federal, que possui um inquérito criminal em andamento sobre o caso, já havia feito o mesmo pedido.
O advogado Rubem Seidel rebateu, dizendo que a justificativa não é válida porque há diversos simuladores no mundo. Ele afirmou ainda que a PF não fez o teste no simulador e também que a apuração destas tragédias aéreas deveria deixar de ser feita pelos militares.
A defesa pretende ingressar até maio com um processo contra a Cessna nos Estados Unidos mostrando que o modelo possui um problema que permitiu o acidente.
"As famílias ficaram devastadas porque houve foco total nos pilotos e nenhuma pontuação sobre casos anteriores de acidente como este e os fatores materiais da aeronave. São mistérios. Não analisaram porque não quiseram", diz Josmeyer Alves.

Falta de treinamento
Para Camacho, ao contrário da versão do Cenipa, comandante e copiloto estavam habilitados para pilitar o Cessna.
"Mesmo que eles não estivessem tido o treinamento, eles tiveram juntos 90 missões, voos, naquele avião. Eles sabiam operar", disse o perito. "Tenho uma absoluta convicção de que houve uma falha no sensor de velocidade que desestabilizou o avião", afirmou Camacho.
Cansaço e brigas
Camacho e os advogados também rebatem os pontos levantados pelo Cenipa de que os pilotos não estavam se entendendo e cansados para o voo. "As famílias nos dizem que eles se entendiam bem, nunca brigaram. Tanto que estão juntas", defendeu o advogado Seidel.
"Os pilotos tiveram mais de 30 horas de descanso antes do voo. Isso é dizer que estavam cansados? E analisaram a voz do copiloto, dizendo que havia fadiga. Ele é mineiro, fala arrastado, devagarzinho", afirmou Camacho.
Investigação
A investigação do Cenipa, que é um órgão da Aeronáutica especializado na apuração de acidentes aéreos, tem como objetivo a prevenção de novos acidentes do mesmo tipo e não aponta culpados. Ainda estão em curso investigações criminal e cível (responsabilização), a cargo da Polícia Federal e Ministério Público Federal.
"A aeronave estava descendo em uma situação bem agressiva", disse o tenente-coronel Raul de Souza, chefe da investigação. "O elevado ângulo negativo e a potência dos motores é característica que a pessoa estava desorientada" no momento da queda, acrescentou ele.

Fatores que contribuíram para o acidente
O Cenipa afirma ter certeza que atuaram na tragédia
* Atitude dos pilotos: eles pegaram rota diferente do previsto na carta para a aproximação do aeroporto, não seguindo os procedimentos e perderam a chance de pouso. A ação errada foi causada "possivelmente" pelo excesso de confiança do comandante.
* Desorientação espacial: estresse e alta carga de trabalho no momento de arremeter, com chuva e falta de visão da pista, além das manobras exigidas sem o treinamento adequado, levaram os pilotos a se perderem no que estava acontecendo. O avião caiu com alta velocidade e ângulo negativo (bico para baixo) e motores com alta potência.
* Indisciplina de voo: ao tentar se aproximar da pista, o avião fez uma curva à esquerda, sem motivo, e também desviou da aerovia que deveria seguir. Os pilotos mentiram posições e usaram velocidade errada à recomendada, com pouca possibilidade de conseguirem o pouso. Também não seguiram as regras determinadas pelos manuais para a arremetida.

* Condições meteorológicas: eram mínimas para o pouso e abaixo do mínimo para a arremetida. Eles só fariam a arremetida segura se tivessem feito tudo certo desde o início. Sem verem a pista, com chuva, vento forte e sem informações antecipadas sobre a mudança do tempo, era difícil estabilizar o avião.

Fatores indeterminados
A investigação acha relevantes, mas não conseguiu comprovar até que ponto interferiram no acidente

* Aplicação dos comandos: o fato do avião ter aumentado muito o ângulo negativo (bico para baixo) e a velocidade "pode ter sido resultado de aplicação de comando exageradas", segundo o relatório. Ou seja, os pilotos podem ter aumentado a velocidade achando que estavam subindo, e não descendo.

* Sobrecarga de tarefas: possibilidade do comandante ter acumulado tarefas na arremetida, devido a uma possível dificuldade do copiloto em ajudá-lo, podem tê-lo induzido a erros de pilotagem ou desorientação.

* Características da tarefa: a rotina de campanha de Eduardo Campos criava uma autopressão nos pilotos para a conclusão das programações, levando-os a operar com pouca segurança.

* Dinâmica da equipe: pilotos tinham dificuldade de integração devido à pouca convivência e diferença de formação. Segundo o relatório, o comandante tinha postura impositiva e confiante, e o copiloto, uma ação passiva.
* Fadiga: resultados de análise de voz mostraram fadiga e sonolência no copiloto.

* Formação, capacitação e treinamento: os pilotos não tiveram treinamento para arremeter no Cessna 560 XLS+, a aeronave envolvida no acidente, o que pode ter exigido grande esforço e apreensão. Eles também não sabiam as diferenças entre os aviões antigos da família Cessna, que eram acostumados a pilotar, e o que estavam operando.
* Fraseologia do órgão ATS: o aeroporto de Santos não informou nas mensagens ao piloto as condições de visibilidade da pista. A falta destas informações pode ter levado os pilotos a accreditarem que o tempo estava como o previsto.
* Memória:  como o comandante já tinha feito uma aproximação visual por um sistema chamado FMS no avião, ele pode ter achado que poderia fazer o mesmo procedimento, mas o manual para este avião prevê uma sequência de comandos específica.
* Percepção: pilotos não tinham percepção ideal das condições meteorológicas na pista e por isso não se preocuparam com a segurança
* Planejamento de voo: o mapa meteorológico que os pilotos viram antes da decolagem e que previa chuva e degradação rápida do clima, mostrava que isso mudaria até o pouso. Eles podem não ter feito uma boa análise dos dados.
* Processos organizacionais: pilotos tinham uma habilitação ampla para operarem aeronaves da família Cessna 560, e não foram questionados por quem os contratou sobre a experiência em usarem o avião de um modelo bem mais moderno. Não havia um sistema formal de recrutamento, seleção e treinamento dos pilotos para este modelo.
Sistemas de apoio: apesar de terem a habilitação, os pilotos não fizeram instrução e teste em voo. Eles também tinham recebido apenas treinamento em versões anteriores do avião que pilotavam. Um mês antes do acidente, uma nova norma da Anac passou a exigir um treinamento específico, mas os pilotos só precisariam provar esta especialização, quando fossem renovar a habilitação.
 O Cenipa aponta uma falha no sistema em vigor no Brasil para a programação de pousos e decolagens (chamado de DCerta) que, na época, não recusou plano de voo mesmo com a nova norma em vigor.

Infográfico acidente Eduardo Campos (Foto: Editoria de Arte/G1)

Fonte: G1

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