terça-feira, junho 23, 2015

MC Garden defende 'funk consciente' e quer levar 'mais respeito' ao estilo

MC Garden (Foto: Rafael Mattos / Estúdio Frame / Divulgação)"Sempre pensei muito diferente", diz Lucas Rocha da Silva ao explicar o apelido de MC Garden, corruptela de Gardenal. Pode mesmo parecer delírio se dizer atual representante único de um
estilo, o "funk consciente". Na real, o funkeiro de 21 anos chegou à crista da onda ao desafiar a corrente de sexo, drogas e ostentação. Em uma semana, superou 7 milhões de visualizações no Facebook com o vídeo caseiro de "Encostei no baile funk". 

'Revolucionar o funk'
Garden já havia conseguido destaque ao fazer críticas sociais no clipe de "Isso é Brasil", no embalo dos protestos de junho de 2013, e na parceria com o "youtuber" Cauê Moura, "Pensadores incomodam" no início de 2015. Mas com "Encostei no baile funk", quer fazer mais do que mandar a real. Ele quer influenciar outros funkeiros e "revolucionar o funk".
"Acredito que se outros MCs de peso vierem nessa onda junto comigo, a gente consegue mudar a cena do funk, e dar mais respeito para o ritmo. Porque ele é muito desrespeitado. Muita gente fala com razão que o funk não é música, que o funk não presta. E têm razão quando falam isso, porque a maioria das letras realmente não tem conteúdo algum, não agrega nada para quem escuta. Mas eu acredito que o funk consciente é a tendência. O pessoal chama de revolucionar o funk", diz Garden.

Mc Gardenal (Foto: Rafael Mattos / Estúdio Frame / Divulgação)

De traficantes a sauna gay
Crescido em Americanópolis, Zona Sul de São Paulo, ele se viu cercado desde cedo por um cenário de conflito. "Os traficantes ficavam na laje da [nossa] casa. Porque a gente era novo no bairro, então não tinha muito o que fazer. Mas eles sempre respeitaram minha família. Era uma realidade em que eu vi muitos amigos meus de escola se envolvendo, mas nunca me envolvi, nunca tive interesse", conta.
Fã de Raul Seixas, ele diz ter se conscientizado ao acompanhar os pais no trabalho em uma ONG. "Eles distribuíam alimentos para famílias carentes. E ali eu via o descaso na realidade. Não só nesse trabalho, mas no dia a dia." Desde então, ele trabalhou com o assistente administrativo e até como recepcionista em uma sauna gay. Mas foi como MC que ele se encontrou.
Respeito ao funk
"Acho que [o sucesso veio] porque falta conteúdo nas músicas atuais, e quando o pessoal vê isso num funk, isso impressiona. Faz com que as pessoas tenham vontade de compartilhar e repassar", diz sobre a repercussão de "Encostei no baile funk" nas redes sociais. "Se abrir a caixa de mensagens da minha página, são milhares por dia que falam: 'Eu odiava funk, mas depois de conhecer o seu passei a respeitar o ritmo'. Ou 'sou roqueiro, mas gosto do seu funk'", diz.
Ele acha que o funk ostentação deveria vir com manual de instruções: "Quando o cara fala que o cara tem que ter um 'boot' de mil reais para ser alguém, não diz o que tem que fazer para ter [o que descreve] na letra. Não fala que o moleque tem que estudar a vida toda, trabalhar para ter uma vida boa. Isso acaba alienando o jovem que escuta. Acaba indo pelo caminho mais fácil: roubar, traficar para poder ser alguém na visão desse tipo de música."
Garden se diz surpreso com a recepção de "Encostei no baile funk" na cena de São Paulo. "Outro dia eu fui na festa que um colega meu estava fazendo na comunidade. Ele pediu para que eu cantasse essa música. Eu cantei, e o próprio traficante de lá falou: 'Pô, você tem razão, mano...'"


Fonte: G1

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