segunda-feira, janeiro 06, 2014

Autor da Globo dita novela inteira para neto digitar, revela diretor

Próxima novela das seis da Globo, Meu Pedacinho de Chão será uma história de reencontros nos
bastidores. A principal delas, a da retomada da parceria entre o diretor Luiz Fernando Carvalho e o autor Benedito Ruy Barbosa.

Ambos estão afastados das novelas há muito tempo. Um dos mais talentosos diretores da TV brasileira, Carvalho não faz novela desde 2003, quando acabou Esperança, que foi também a última novela das nove de Benedito Ruy Barbosa, igualmente um dos grandes nomes da teledramaturgia nacional. Esperança foi um fiasco (para os padrões da época) e Barbosa não conseguiu terminá-la. Em 2006, o escritor sofreu um acidente vascular cerebral e, desde então, não consegue escrever com agilidade.

Neste depoimento exclusivo ao Notícias da TV, Luiz Fernando Carvalho conta que Benedito Ruy Barbosa só conseguiu terminar a terceira e definitiva versão de Meu Pedacinho de Chão graças a um neto. O autor ditou toda a novela (que já está totalmente escrita) para Marcos Barbosa. O neto "passou para o computador o que o avô lhe contou", revela Carvalho.

Com Antônio Fagundes, Rodrigo Lombardi, Osmar Prado e Juliana Paes, Meu Pedacinho de Chão contará a história uma professora que chega a uma cidadezinha ensinar as crianças e se depara com uma realidade de opressão do povo por um coronel. Apesar de ser a terceira versão, de acordo com Carvalho será a primeira com o final planejado pelo autor _a segunda edição, em 1971/72, foi censurada pela Ditadura Militar (1964-1985).

A seguir, o depoimento de Luiz Fernando Carvalho:


"Estou de volta às novelas desde Esperança (2002), que veio em seguida a O Rei do Gado (1996) e Renascer (1993). No intervalo entre elas, realizei também Os Maias (2001) _ esta, por se tratar de uma produção de quarenta e poucos episódios, considero uma pequena novela, pois sua adaptação era estruturada como tal. Estas foram as novelas cujos conceito e direção geral partiram de mim. Participei de outras, mas era apenas um dos diretores assistentes. 

Como vê, tenho pouca experiência em novelas, qualquer jovem diretor possivelmente já dirigiu o triplo; contudo, tive a sorte de criar uma parceria com o Benedito Ruy Barbosa, que considero um grande ficcionista. Nossos entendimentos dos elementos que estruturam uma obra para o grande público brasileiro sempre foram convergentes. Sou uma espécie de tradutor de sua síntese, não exatamente um diretor. Entendo o que ele pretende passar e então me coloco generosamente a seu serviço. Quero dizer com isso que, por mais que tenha colaborado com a minha visão e alguma criatividade em todos os trabalhos que fizemos juntos, a síntese foi e sempre será dele.

Decidi dirigir poucas novelas para me colocar diante delas como um amador.  Esse frescor é fundamental para mim. Por isso Meu Pedacinho de Chão não se trata de mais uma novela, nem mesmo considero este momento como simplesmente minha volta às novelas. Não estou voltando a nada, pois não considero ter abandonado coisa alguma. O que existe é a continuidade de um exercício de dramaturgia que não termina nunca e, especialmente em relação às novelas, ainda pouco explorado por mim. Tenho ainda curiosidades em relação ao gênero e por isso mesmo considero um desafio revisitá-lo. Sou um aprendiz. Não trago regras ou certezas de como deve ser feita a coisa, trago apenas amor pela história e os personagens. Sou um amador, já disse.

É também um momento de grande emoção para mim, veja bem: Benedito, depois de um longo período impossibilitado de escrever (por questões de saúde), volta a escrever uma novela. Digo “volta a escrever”, pois, para mim, não se trata de um remake, considero uma obra original. Ajudado por seu neto Marcos Barbosa (que passou para o computador o que o avô lhe contou, já que ele perdera a enorme velocidade que tinha como datilógrafo), Benedito narrou metade de memória, metade reinventando tudo, completando tudo!  Sim, completando, pois nas outras duas versões anteriores da novela, quando exibidas, por circunstâncias diferentes, não chegou ao fim da história. Uma das vezes, a própria emissora _muito precária na época_ passava por dificuldades para se manter. Na segunda vez, a novela foi exibida em plena ditadura militar. Benedito desde sempre abordou questões sociais em seus textos, isso fez com que a censura retirasse a novela do ar.

É por isso que Meu Pedacinho de Chão chega agora para ser contada com o total frescor de um texto novo. Então estamos falando de Renascimento! Este é o tema que vejo mais latente em tudo, pois quando Benedito recobrou a saúde sentiu uma necessidade vital de escrever. Ou escrevia ou não conseguiria seguir vivo. Poderia escrever qualquer coisa, mas uma necessidade imensa clamou dentro de si: terminar Meu Pedacinho de Chão _sua primeira novela.  

Por tudo isso, Meu Pedacinho de Chão não se configura como um simples remake.  Uma das grandes modernidades do texto é a concisão: são apenas 20 personagens, poucos cenários. Tudo se passa através de uma dramaturgia, a um só golpe, lírica e cômica, repleta de personagens inesquecíveis.

Quanto ao elenco, estou lançando, como de costume, muitos atores e atrizes novos em papéis importantes. Ao mesmo tempo trabalho com atores consagrados em códigos novos, como é o caso do [Antonio] Fagundes, do Rodrigo Lombardi, do Osmar Prado e da Juliana Paes. Se tivesse que resumir essa experiência, diria que estamos diante de um grande Divertimento. É assim que todos estamos nos sentindo."

Reprodução Cidade News Itaú

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