segunda-feira, setembro 12, 2022

Atos e comícios em SP reúnem pouco público e preocupam campanha de Lula

A militância do PT e dos movimentos sociais próximos ao partido agendaram para o último sábado (10) uma jornada de manifestações em vários estados, como uma resposta às mobilizações de 7 de setembro organizadas por apoiadores de Jair Bolsonaro (PL). Convocadas com o mote de defesa da democracia, os atos serviriam também para dar impulso à campanha de Lula na reta final das eleições. 


Lula e Alkmin em São Paulo — Foto: Reprodução


O resultado, no entanto, frustrou. As manifestações foram esvaziadas, especialmente a que ocorreu à tarde na Avenida Paulista - que três dias antes ficou cheia de apoiadores de Bolsonaro. A cena se repetiu em quase todas as cidades que receberam convocações, à exceção do Recife, onde a manifestação foi numerosa. O que a campanha de Lula temia, aconteceu: nas redes sociais, apoiadores de Bolsonaro expuseram as fotos comparando as mobilizações.



A dificuldade de atrair público se estende também aos comícios de Lula em São Paulo. Se nas capitais da região Norte e Nordeste as visitas do ex-presidente têm reunido dezenas de milhares de apoiadores, no maior colégio eleitoral tem sido diferente. Essa situação preocupa a campanha porque há uma percepção que o resultado em São Paulo vai ser decisivo nessas eleições. Tanto é que ficou decidido, na última reunião do conselho político de Lula, na terça (6), intensificar as agendas na região Sudeste na reta final do 1º turno.


Comício organizado por Alckmin

Na manhã deste sábado (10), cerca de três mil pessoas, em sua maioria ligadas a campanhas de deputados, acompanharam o comício de Lula em Taboão da Serra, município vizinho à capital, horas antes do ato na Avenida Paulista. A escolha da cidade foi de Alckmin, que articulou a organização com o prefeito local, José Aprígio, do Podemos, partido que integra as coligações de Rodrigo Garcia (PSDB), em âmbito estadual, e de Simone Tebet (MDB), na disputa nacional. Aprígio fez um discurso longo, repleto de elogios a Lula e a Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo.


No palco estavam também autoridades de outros municípios da região, inclusive de legendas adversárias, como o prefeito de Cotia, Rogério Franco, do PSD, partido da coligação do bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) na eleição estadual; o ex-prefeito de Embu das Artes Jorge Costa, do PDT de Ciro Gomes; e o ex-prefeito de Itapecerica da Serra Geraldo Cruz, do PTB, partido alinhado a Jair Bolsonaro.



Muitas autoridades no palco, pouca gente no chão. O terreno escolhido para o comício, às margens da rodovia Régis Bittencourt, foi preparado para receber pelo menos 10 mil pessoas, mas só uma pequena parte do espaço foi ocupada pelo público. Moradores de prédios vizinhos fotografaram o comício do alto e ironizaram a baixa presença de público.


Além do prefeito de Taboão, discursaram: Lula, Haddad, Márcio França (candidato ao Senado pelo PSB), Juliano Medeiros (presidente do PSOL) e o deputado federal Márcio Macedo (PT-SE), tesoureiro da campanha do ex-presidente. Nenhum deles sequer mencionou os atos que aconteceriam naquele mesmo dia na Avenida Paulista e em outros locais do país.


Outro comício que teve uma quantidade de público aquém do esperado foi o do Vale do Anhangabaú, em 20 de agosto. Amplamente convocado pela campanha, a ideia era reeditar uma espécie de “Diretas Já”, com representantes de diversos partidos diferentes no palco e uma multidão no vale.


A expectativa era trazer 50 mil pessoas, mas o ato reuniu menos de 10 mil, segundo um cálculo feito pelo grupo de pesquisa ‘Monitor do debate político’, da EACH (Escola de Artes Ciências e Humanidades) da USP.


Postura reativa

Desde a escolha de Alckmin como vice, os petistas tentam transformar a campanha do ex-presidente numa espécie de frente ampla pela democracia, num esforço para isolar Bolsonaro e desidratar os candidatos da terceira via. Nesse sentido, a jornada de manifestações de sábado foi pensada como um desdobramento do manifesto em defesa da democracia de 11 de agosto na Faculdade de Direito da USP.



A data de 10 de setembro foi definida ainda em julho. Portanto, o PT e os movimentos sociais tiveram cerca de um mês e meio para preparar a mobilização, o que não foi feito, segundo relatos de interlocutores da campanha. Os movimentos e a cúpula da campanha adotaram, então, uma postura reativa: apostavam que Bolsonaro repetisse no 7 de setembro o discurso golpista, agressivo às instituições e à democracia. Contavam, ainda, que isso provocaria uma reação popular espontânea, que, associada à estrutura dos movimentos, fosse capaz de encher as ruas. 


A agressividade esperada não veio. E a quantidade de apoiadores de Bolsonaro em Brasília, São Paulo e no Rio de Janeiro no 7 de setembro surpreendeu o QG petista. Sem ter preparado os atos com antecedência e, dessa vez, sem o discurso golpista do outro lado para insuflar uma reação, o que fazer? Manter a mobilização ou desmarcar? Dar peso ou colocar o pé no freio?


Na quinta-feira (8), representantes de CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), UNE (União Nacional dos Estudantes) e CMP (Central de Movimentos Populares) se reuniram no comitê de campanha de Fernando Haddad em São Paulo para tratar do assunto.



Na saída da reunião, um dirigente de um movimento resumiu à reportagem: “as manifestações estão mantidas. Vamos sair do MASP, caminhar pela Paulista, descer a Rua Augusta até a Praça Roosevelt”. Questionado sobre a expectativa de público, respondeu: “Com dois dias pra organizar é difícil, né? A gente esperava uma agressividade, um discurso golpista de Bolsonaro. Não aconteceu. Isso ia gerar uma resposta da população". 


Com exceção do MTST, não houve convocação dos atos nas redes sociais dos movimentos que participaram da organização. 


Interlocutores dos movimentos alinhados ao PT dizem que a atual postura letárgica e reativa de hoje tem relação com uma tática adotada pelo núcleo duro da campanha de Lula: evitar ações que possam ser interpretadas como radicalização ou equiparadas à postura de Bolsonaro. A orientação é adotar um tom moderado, de estadista, não do agitador de outros tempos.


Outro dirigente de movimento social que falou à reportagem vai além: avalia que o PT e os movimentos não têm conseguido mobilizar as massas, em parte, por uma postura do próprio Lula nos últimos anos, que não age como catalisador das massas. "É muito diferente a relação do Bolsonaro com a base do que a do Lula com a base. O Bolsonaro lida com militantes. Mobiliza militantes, forma e orienta os militantes. O Lula, não. Ele lida com o eleitorado. Pensa só no voto, não está preocupado em organizar base militante."


Fonte: g1

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