quarta-feira, agosto 21, 2019

Cientista da UFMG, vencedora de prêmio internacional apoiado pela Unesco, pensa em sair do país por ameaça de cortes do CNPq

Com a possibilidade de não haver repasse para bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em setembro, várias pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) podem ficar paralisadas já no mês que vem. Uma delas é coordenada pela professora Angélica Vieira, uma das vencedoras da edição de 2018 do prêmio ‘“Para Mulheres na Ciência”, realizado pela L’Oréal Brasil em parceria com a UNESCO e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Professora Angélica Vieira está entre as vencedoras do prêmio Mulheres na Ciência. — Foto: Angélica Vieira/Arquivo pessoal
Professora Angélica Vieira está entre as vencedoras do prêmio Mulheres na Ciência. — Foto: Angélica Vieira/Arquivo pessoal

O CNPq anunciou no dia 15 de agosto que suspendeu a assinatura de novos contratos de bolsas de estudo e pesquisa. O Ministério da Ciência e Tecnologia também admitiu que há risco de que as bolsas fiquem sem pagamento em setembro.

“Eu tenho pensado em sair do Brasil para continuar a pesquisa. Se eu não sair, provavelmente os avanços serão feitos por colegas de outros países. É uma perda imensa para a ciência no Brasil. Trabalho jogado fora”, disse a professora que coordena uma pesquisa que estuda os efeitos da alimentação saudável no combate à chamada “superbactéria” , resistente a antibióticos.
De acordo com ela, metade dos alunos que trabalham no laboratório são bolsistas do CNPq. “Está um caos. Só no meu grupo são três os que tem dedicação exclusiva. Estamos desesperados”, disse a cientista.

Além dos alunos, a professora também teve recursos do CNPq aprovados. Porém, não recebe a verba há oito meses.

“Nós estávamos sobrevivendo com a bolsa do prêmio, que é de R$50 mil. Porém, ela já acabou. A gente também tem recursos aprovados pela Fapemig, mas não recebemos há um ano”, contou ela.
A Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) suspendeu parte dos recursos em fevereiro por causa da crise financeira do estado. Só a UFMG perdeu R$ 2,5 milhões destinados a bolsas de iniciação científica e cerca de R$ 13 milhões para projetos liderados por professores em toda a UFMG.

De acordo com a professora Angélica, cerca de 30% da pesquisa estão concluídos. “As possibilidades são enormes. Uma pena. No futuro, a longo prazo, este corte vai causar um prejuízo terrível para ciência, além de barrar carreiras futuras brilhantes”, lamentou.

Suspensão

Nota do CNPq sobre a suspensão de novos contratos de bolsistas — Foto: Divulgação/CNPq
Nota do CNPq sobre a suspensão de novos contratos de bolsistas — Foto: Divulgação/CNPq

Sem resposta do governo federal sobre a garantia de abertura de crédito suplementar para cobrir o déficit do orçamento de 2019, o CNPq anunciou no dia 15 de agosto que suspendeu a assinatura de novos contratos de bolsas de estudo e pesquisa.

A recomposição, segundo informou o órgão ao G1, se refere ao crédito suplementar de R$ 330 milhões. Quem abre o crédito é o Ministério da Economia, mas, de acordo com o conselho, até a tarde desta quinta, a pasta não havia dado garantias de que liberaria o reforço orçamentário.

Ao G1, o Ministério da Economia afirmou que o pedido de crédito suplementar para o CNPq, feito em 1º de março e referendado em votação no Congresso Nacional em 11 de junho, ainda "permanece em análise na JEO [a Junta de Execução Orçamentária], sem prazo para decidir sobre o pleito."

Esse recurso é necessário para cobrir o déficit previsto pelo CNPq desde o ano passado, quando a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2019 foi aprovada, para as bolsas.

No dia 16 de agosto, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes afirmou que há risco de que as bolsas do CNPq fiquem sem pagamento em setembro. Segundo ele, a liberação de recursos está na "mão da Economia e também da Casa Civil".

Prédio da reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte — Foto: Reprodução/TV Globo
Prédio da reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte — Foto: Reprodução/TV Globo

Campeã de patentes
Só no Instituto de Ciência Biológicas (ICB) funcionam cerca de 400 laboratórios de pesquisas biológicas e biomédicas. O risco é perder anos de estudos e de investimentos porque a previsão dos cortes deve começar nos serviços básicos.

O ICB tem o maior número de patentes de medicamentos no país e graças a institutos como ele, o Brasil ocupa o 13º lugar no ranking mundial em pesquisas científicas.

Fonte: G1

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