sábado, abril 15, 2017

Metade dos estádios da Copa tem suspeitas de irregularidades, segundo delações da Odebrecht

Estádios da Copa do Mundo com suspeita de irregularidades  (Foto: Secom/Pernambuco Press/GloboEsporte)

Pelo menos metade dos 12 estádios utilizados na Copa do Mundo de 2014 está envolvida em suspeitas de irregularidades, segundo os delatores da construtora Odebrecht.
A Procuradoria Geral da República pediu ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Luiz Fachin, que encaminhe as petições envolvendo as praças de Rio de Janeiro (Maracanã), Brasília (Mané Garrincha), Recife (Arena Pernambuco), Fortaleza (Arena Castelão) e Manaus (Arena da Amazônia) a outras instâncias. Um inquérito relacionado à Arena Corinthians segue em sigilo no STF.
Em 4 estádios, há relatos de que construtoras combinaram os valores para a licitação, cada uma levando vantagem em pelo menos uma ocasião.
Os citados nos inquéritos abertos e nas petições encaminhadas por Fachin que se pronunciaram negaram irregularidades; saiba o que disseram.
Veja as suspeitas sobre cada um dos estádios:

Maracanã

A petição 6.860, que abrange suspeitas sobre a reforma do Maracanã, é baseada nos relatos de 5 delatores da Odebrecht.
O depoimento do ex-executivo Benedicto Barbosa da Silva Júnior cita "um pedido de Sérgio Cabral para a inclusão da (empresa) Delta no consórcio para a realização das obras", bem como "pagamento de propina" ao ex-governador. Não há menção a valor.
Outro delator citado na petição, Marcos Vidigal do Amaral, também apontou "solicitação de vantagem indevida" por parte de Cabral e "tratativas para restringir a competitividade da licitação". Mas, novamente, o documento não detalhou valores.


As delações da Odebrecht citam que foram pagos cerca de R$ 120 milhões ao ex-governador Sérgio Cabral e à campanha do governador Luiz Fernando Pezão, para favorecimento em obras, mas não são apontadas quantias específicas relacionadas ao Maracanã.
A petição também engloba suspeita de pagamento de propina para viabilizar o edital da concessão. O delator João Borba Filho disse que o então secretário do governo, Wilson Carlos, "avisou-lhe que a Odebrecht precisaria acertar a quantia com o Tribunal de Contas do Estado, para a liberação do edital" de concessão.

Um terceiro delator da Odebrecht, Leandro Andrade Azevedo, cita "solicitação de vantagem indevida por parte de Jonas Lopes de Carvalho", ex-presidente do TCE do RJ, "no valor de R$ 4 milhões", em parcelas de R$ 1 milhão. Segundo ele, o codinome pelo qual a Odebrecht se referia a esse pagamento "Casa de doido".
Lopes de Carvalho foi preso em março último na Operação Quinto do Ouro, que apura desvios para favorecer membros do TCE durante a gestão de Cabral.
Segundo Azevedo, só uma parcela foi paga, porque a Lava Jato já estava em curso. Ele relata que, mesmo com a operação nas ruas, no fim de 2014, o presidente do TCE o convocou e cobrou o pagamento.
"A gente estava no meio da Lava Jato, tinha acabado de acontecer a prisão do, se não me engano, do presidente da OAS... em dezembro, né? Tinha acabo de acontecer as operações", relatou. "Em cima da mesa tinha o (jornal) O Globo. E aí eu, delicadamente, virei pra ele e falei: 'Presidente, eu vou ao toalete, o senhor, por favor, dá uma olhada na capa d'O Globo e eu volto. Ele ficou super sem graça e virou pra mim e falou: 'Peço mil perdões, sei o momento que vocês estão vivendo, horrível, mas é que tô sendo muito pressionado pelos outros conselheiros."

O quarto delator, Luiz Eduardo da Rocha Soares, narrou as negociações para a retirada da Delta das obras em 2012. Em depoimento, Soares afirmou Fernando Cavendish, então dono da Delta, enfrentava uma série de denúncias, por envolvimento com Carlinhos Cachoeira e com o então governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB). "Ele [Cavendish] teve que sair e começou a ter muitos problemas em manter a empresa em pé."
Segundo Soares, Cavendish foi chamado para uma reunião com Benedicto Júnior. A ideia era pagar a participação a que o empresário da Delta tinha no Maracanã, para que ele saísse da obra, e a Odebrecht assumiria.
"Sentamos lá no RJ, no escritório da Odebrechet, Praia do Botafogo, 300, Benedito Júnior, eu e Fernando Cavendish. E ele falou que tinha uma conta corrente em Hong Kong. Eu perguntei se era dele, ele falou que não, perguntei de quem que era, ele não quis dizer, mas [disse] que era seguro, podia fazer os pagamentos e ele me passou essa conta da unilinks", afirmou Soares. O delator afirmou que usou um chinês com conta no mesmo banco para fazer a transferência de US$ 12 milhões.
O documento sobre o caso também inclui a delação de João Borba Filho.

A reforma do Maracanã estava orçada em R$ 700 milhões, mas os custos chegaram a R$ 1,05 bilhão. O pedido de investigação foi enviado à Justiça Federal do Rio de Janeiro.

Arena Corinthians

Um inquérito sobre a construção da Arena Corinthians, onde aconteceu a abertura da Copa, foi autorizado em novembro passado, pelo então relator da Lava Jato no Supremo, o ministro Teori Zavascki, e continua sob segredo de Justiça. O alvo é o deputado federal Andres Sanchez (PT-SP), ex-presidente do Corinthians.
Segundo o site do STF, a investigação é relacionada a crimes praticados por funcionários públicos contra a administração em geral e corrupção passiva, sem dar detalhes.
O que se sabe, até agora, é que o ex-presidente da construtura, Marcelo Odebrecht, disse em delação que o negócio foi fechado de maneira informal, em um jantar em sua casa, em 2011.

Segundo o executivo, estavam presentes o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Além deles, havia pessoas ligadas ao clube, como Sanchez e o ex-jogador Ronaldo.
Odebrecht afirmou que o governo federal se comprometeu a aprovar um empréstimo de R$ 400 milhões ao Corinthians, para a obra. E que fez um empréstimo extra, de cerca de R$ 350 milhões, com a anuência da ex-presidente Dilma Rousseff, para conseguir completar a construção e pagar obrigações que eram da prefeitura.
Inicialmente projetada em R$ 350 milhões, a construção passou para R$ 820 milhões com a Copa e acabou custando mais de R$ 1,1 bilhão. Odebrecht disse que acabou considerando que foi um mau negócio. "Você sai de um estádio de R$ 400 milhões, que era o que o Corinthians queria, para um de R$ 800 milhões, R$ 900 milhões, por causa das exigências da abertura da Copa do Mundo", disse na delação.

Mané Garrincha

A petição 6.766 diz que houve "acordo de mercado" envolvendo a obra do estádio Mané Garrincha, em Brasília. Ela se baseia nas delações de João Pacífico e Ricardo Roth, ex-executivos da Odebrecht.
Nos vídeos da delação, eles explicaram que foram procurados pela construtora Andrade Gutierrez, a fim de elaborar uma proposta de cobertura, favorecendo a Andrade.
Segundo Pacífico, isso acontece quando duas companhias combinam o valor que irão cobrar pela obra. Desta forma, uma delas acaba beneficiada na licitação. Ele disse que a Odebrecht não teria interesse na construção da arena em Brasília.
Mais cara entre os estádios da Copa, a reforma do Mané Garrincha, segundo o governo, custou R$ 1,4 bilhão.
O procurador-geral da República Rodrigo Janot pediu que o ministro Luiz Fachin, do Supremo Tribunal Federal, encaminhasse o pedido de investigação à Justiça Federal do Distrito Federal.

Arena Pernambuco

A petição 6.839 aponta que a realização de “ajustes de mercado, fraudes em licitação e pagamento de propina a diversos agentes políticos e outros” em razão do contrato da obra da Arena Pernambuco.
Ela se baseia na delação de João Antônio Pacífico Ferreira. Segundo ele, a Odebrecht combinou uma “proposta de cobertura” com a Andrade Gutierrez, onde duas empresas combinam o valor que irão pedir para realizar a obra. No caso, a Andrade apresentou um valor maior, para favorecer a Odebrecht - em contrapartida ao que foi feito no estádio Mané Garrincha.
Os custos de construção da Arena Pernambuco, segundo o governo, foram de R$ 532,6 milhões. As investigações foram encaminhadas para a Justiça Federal de Pernambuco.

Arena da Amazônia

Com base na delação de Benedicto da Silva Júnior, a petição 6.709 diz que ele foi procurado por um funcionário da Andrade Gutierrez, que "pediu que fosse apresentada proposta de cobertura na Arena da Amazônia".
O documento aponta que o Silva Júnior aceitou o pedido. O esquema é semelhante ao usado na Arena Pernambuco e no estádio Mané Garrincha. Segundo a delação do ex-executivo, a Odebrecht apresentou um valor para a obra superior ao da Andrade Gutierrez, que se viu em vantagem.
Os custos de construção da Arena da Amazônia, segundo o governo, foram de R$ 660,5 milhões. O pedido de investigação foi encaminhado à Justiça Federal do Amazonas.

Arena Castelão

Na petição 6.856, também baseada na delação de Silva Júnior, diz que ele foi procurado por executivos da Carioca Engenharia para que a Odebrecht "apresentasse proposta na licitação dirigida à obra de reforma da Arena Castelão".
O documento cita que "a solicitação tinha por objetivo facilitar a vitória da Carioca Engenharia". De com o trecho da delação que consta da petição, a Odebrecht concordou com a combinação, mas, "a Carioca Engenharia acabou, ao final, não se sagrando vencedora" da licitação.
Os custos da reforma do Castelão, segundo o governo, foram de R$ 518,6 milhões. O pedido de investigação foi encaminhado à Justiça Federal do Ceará.

Fonte: G1

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